Transtornos de Personalidade

A partir de 1952, com a publicação do primeiro Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) pela Associação Americana dePsiquiatria (APA) se começa a desenhar um pensamento médico e clínico paraa compreensão e o diagnóstico dos transtornos de personalidade.

Nessa versão inicial, as patologias da personalidade tiveram breves descrições e incluíram um amplo campo diagnóstico para o transtorno de personalidade anti-social, com subtipos como desvios sexuais, alcoolismo,dependência de drogas e reações dissociais.

A partir da década de 80, com a publicação do DSM-III, é que foi elaborado um sistema diagnóstico, categorizando os transtornos, baseado em critérios diagnósticos consistentes com o diagnóstico médico contemporâneo.

Entende-se que fatores genéticos, biológicos, e sociais estão relacionados com aspectos psicológicos na construção de um transtorno de personalidade.

Um transtorno de personalidade também é construído dentro de uma determinada cultura e num certo período do tempo. Por exemplo, certos comportamentos, como mentir e matar aula, podem ser observados no curso dodesenvolvimento normal de crianças e adolescentes e não são necessariamente

desviantes do padrão social e nem patológicos.

É preciso atentar também ao fato de que foi a partir da década de 1950 que a indústria farmacêutica ganhou força com a produção de medicamentos que prometiam soluções quase instantâneas para as “dores da alma”.

A psiquiatria saudou as soluções oferecidas pela industria farmacêutica de braços abertos, feliz em deixar de lado procedimentos antiquados e até ineficientes que persistiam na tradição médica (como a lobotomia) Muito da construção dos diagnósticos psiquiátricos- a partir deste momento histórico- foi feito lado a lado com interesses comerciais, afirmam alguns críticos.

Deste modo, é interessante observar como cada pessoa é afetada pelo que se pode chamar de transtorno de personalidade sem se prender a categorias que podem ser genéricas e desconsiderem a particularidade de cada pessoa.

Outro ponto relevante é a comorbidade- comuns em pessoas com transtorno de personalidade– com outros transtornos mentais, como depressão, ansiedade, e dependência de álcool e outras drogas, por exemplo. A presença de uma desordem da personalidade complica o tratamento da maioria dessas condições, em grande parte pela dificuldade de adesão aos tratamentos psicoterapêuticos e medicamentosos apresentados pelos pacientes.

Com ou sem tratamento, o prognóstico da maioria dos transtornos mentais é agravado pelo transtorno de personalidade coexistente, que representa um fator de risco importante para gravidade e cronicidade.

O suicídio, que permanece como a maior causa de morte de pacientes com TP. Especificamente nas pessoas com transtorno borderline, os comportamentos suicidas (definido como qualquer ação que poderia causar a própria morte) são observados em aproximadamente 80% dos pacientes. O risco de suicídio entre essa população é estimado entre 8 e 10%, o que representa um risco 50 vezes maior do que na população geral.

Sintomas

Há diversos tipos de transtornos de personalidade e, desse modo,diferentes comportamentos que podem ser indicativos de um transtornomental. Mas, de um modo geral, pode-se dizer que um transtorno de personalidade pode perturbar os afetos, fazendo que o comportamento da pessoa desvie consideravelmente do esperado pela sua cultura local- que pode ser representado pelas pessoas e o universo de tradições e comportamentos que compartilham.

Alguém que é muito agressivo, tem explosões de raiva, ou alguém muito carente de atenção, ou ainda alguém que não parece se importar com os outros pode ter um transtorno de personalidade.

O diagnóstico é dificultado em parte pela própria natureza dos sintomas, pouco diferenciados e com fronteiras menos nítidas com a normalidade, e pela necessidade de uma avaliação longitudinal e em vários contextos.

É comum que pessoas com transtorno de personalidade tenham um repertório limitado de emoções, atitudes e comportamentos para lidar com os problemas e o estresse da vida cotidiana, apresentando respostas inadequadas para situações ordinárias que muitas vezes geram sofrimento e/ou prejuízos a si ou aos outros.

Os sintomas do transtorno de personalidade costumam aparecer na adolescência e se manterem até a vida adulta.

Pacientes com transtorno de personalidade tendem a ser atendidos em períodos de crise ou em decorrência de sintomas de depressão, ansiedade e problemas relacionados ao uso de substâncias psicoativas, que representam comorbidades muito prevalentes.

Independente da orientação teórica do(a) profissional responsável pelo diagnóstico é importante salientar que uma abordagem terapêutica deve levar em conta a natureza complexa do sofrimento psíquico, gerando mais cautela e individualização no que diz respeito às abordagens terapêuticas.

Ou seja, é necessário olhar para cada pessoa, individualmente, e entender como se manifesta e quais as repercussões de um dado transtorno de personalidade.

Um diagnóstico de doença mental pode se tornar um fardo se for utilizado e/ou sentido como um rótulo que pode engessar a pessoa num estereótipo.

Tipos de Transtornos

Descrições e critérios diagnósticos de acordo com o DSM-53³ Transtorno da Personalidade Paranóide Desconfiança e suspeitas em relação aos outros, de modo que as intenções são interpretadas como maldosas, que se manifesta no início da idade adulta e está presente em uma variedade de contextos.

Transtorno da Personalidade Esquizotímica

Déficits sociais e interpessoais, marcado por desconforto agudo e reduzida capacidade para relacionamentos íntimos, além de distorções cognitivas ou perceptivas e comportamento excêntrico.

Transtorno da Personalidade Anti-social

Desrespeito e violação dos direitos alheios, que ocorre desde os 15 anos.

Transtorno da Personalidade Borderline

Instabilidade dos relacionamentos interpessoais, da auto-imagem e dos afetos e acentuada impulsividade,que se manifesta no início da idade adulta e está presente em uma variedade de contextos.

Transtorno da Personalidade Histriônica

Excessiva emotividade e busca de atenção, que se manifesta no início da idade adulta e está presente em uma variedade de contextos.

Transtorno da Personalidade Narcisista

Grandiosidade em fantasia ou comportamento), necessidade de admiração e falta de empatia, que se manifesta no início da idade adulta e está presente em uma variedade de contextos.

Borderline

Dados de 2013 da Associação Americana de Psiquiatria (APA) dão conta de que o transtorno de personalidade borderline é o transtorno de personalidade mais prevalente no âmbito clínico, contabilizando cerca de 10% dos pacientes ambulatoriais e aproximadamente 20% dos pacientes psiquiátricos internados. Na população em geral, estima-se que atinja entre 1,6% e 5,9% das pessoas. O transtorno de personalidade borderline repercute em severo prejuízo funcional e em acentuado uso dos serviços de saúde por meio de hospitalizações recorrentes e tratamentos extensivos com medicamentos e psicoterapia.

É uma condição que gera grande sofrimento, com taxas de tentativas de suicídio que atingem quase 10% daqueles diagnosticados com o transtorno, número 50 vezes maior do que as taxas observadas na população em geral (APA, 2001).

O transtorno de personalidade borderline é um distúrbio de difícil diagnóstico, e geralmente tardio. Há muitas vezes confusão com outros transtornos. A gravidade do transtorno borderline está relacionada a presença de comorbidades- que interferem de forma substancial no prognóstico do paciente.

Associa-se ainda, os distúrbios do sonho com os distúrbios de personalidade borderline, sendo freqüente o relato de pesadelos, e níveis de ansiedade nossonhos, impactando na qualidade do sonos.

Além disso, é um problema de saúde mental associado a expressivo estigma, o que reflete a dificuldade das pessoas – sejam leigos, portadores do transtorno, ou mesmo profissionais da saúde mental – em compreender os comportamentos desses pacientes e serem empáticas com seu sofrimento.

Num estudos sobre mulheres que sofrem de transtorno de personalidade borderline e suas relações amorosas as autoras afirmam que, freqüentemente, no início dos relacionamentos elas se mostram sedutoras, amantes protetoras e cuidadosas, mas já cobram do outro a mesma intensidade de intimidade e apego.

E, mesmo que haja reciprocidade dos(as) parceiros(as) as mulheres com o transtorno borderline não a percebe como tal, nada é suficiente, há inúmeras cobranças e a certeza de que o outro está sempre em débito com elas.

É importante destacar que durante as interações amorosas, como suas identidades são fluídas e suas emoções são intensas, geralmente se excedem diante de qualquer estímulo, bem como no excesso de sentir em relação ao outro e a si mesmo. Por terem dificuldades de autopercepção, a autoestima é rebaixada,cria-se a dependência afetiva, a distorção da percepção dos fatos e muitas crises de ciúmes.

A incessante procura por aprovação e aceitação denotam ao(a) parceiro(a) que seus sentimentos são desproporcionais e negativos. E é nesta desconexão entre o real e o imaginário que ocorrem os esforços frenéticos para não serem abandonadas fazendo os relacionamentos ruírem.

O desespero frente ao receio de serem abandonadas e rejeitadas é tanto que podem inclusive incorporar atos de comer, falar ou se vestir de pessoas as quais consideram “dignas de serem amadas”. Não é de se estranhar, portanto, as súbitas mudanças de opinião, de humor, de valores e de parceiros amorosos.Aliás, a oscilação no humor é uma das queixas mais freqüentes, indo no pensamento dicotômico- de opostos- do tudo ou nada, do amor ao ódio em espaço de segundos, uma vez que são capazes de deprimir-se de forma imediata frente a um acontecimento frustrante, especialmente quando este envolve rejeição afetiva, como o término de um relacionamento amoroso.

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